Carnaval

* Antes de mais nada, queria agradecer as diversas mensagens que recebi depois do meu último texto. Elas me ajudaram a jogar tudo pro alto, me enfiar num ônibus e ir pro Rio aproveitar o carnaval. Abaixo segue o texto narrando essa experiência. Espero que gostem!

Marilyn Monroe vende cigarros na banca de revistas, enquanto samba ao som dos botecos. Bárbara rouba meus elásticos de cabelo. Hellboy bebe catuaba fazendo careta. O bloco do barulho passa, conquista e incomoda. Uma senhora na casa dos sessenta bafora lança-perfume e garante que carnaval de verdade era o da sua época.

São as invasões bárbaras do Rio de Janeiro: É só paulista e gaúcho para todo lado. As mesmas músicas tocam o dia todo, e a maioria das pessoas só trabalha por refrão.

Quase todas as minhas personagens estão aqui, junto com cem mil garotas fantasiadas de sereia. Fevereiro foi um mês bom para quem vende glitter. O sol nasce e se põe em Ipanema; no meio tempo, cada cerveja é quatro, três são dez.

Quatro dias baseados inteiramente em álcool e x-filet. Quem não está bebendo, esfrega os dedos na gengiva – Ambev e Michael Douglas são os patrocinadores oficiais do carnaval brasileiro.

Fico imaginando como deve ser a vista do Vidigal, enquanto a Vidigal não para de cantar ao meu lado que alguém partiu seu coração. Fazemos amizade sincera com taxistas, as meninas trocam selinho por cervejas, no Rio se faz qualquer negócio por um metro de ar condicionado.

Me saio perfeitamente bem na minha fantasia de paulistano deslocado – branquelo, de tênis e cintura dura. Me recuso a fazer qualquer programa que não seja na rua, de graça e que não possa ser feito apenas de bermuda e tênis. O câmbio é cruel: rapidamente meu dinheiro se converte em porre e ressaca, sem troco.

Queimei largada num esquenta ao som de AC/DC. Pausa estratégica para comer croissant de queijo. Cabeça rodando, visão turva como a câmera de um celular antigo. O taxista se recusa a me levar com medo de que eu vomite no seu carro. Um motoboy com camisa do Flamengo ouve a conversa e me oferece uma carona por quinze reais, o que pareceu justo para mim.

Na garupa da moto, a brisa fresca que vem do mar parece soprada pelo próprio Cristo, enquanto a moto dança entre os carros. Durante todo o trajeto, o flamenguista só fala em Diego, Diego e Diego. Não me lembro de ter dito onde era minha casa, mas de repente estou nela.

Acendo um cigarro e alguém me estende uma latinha vazia. Pensei que era um cinzeiro, mas era o loló de um sujeito. Tudo se acalma quando lhe sirvo um pouco do whisky que roubei do meu pai como pedido de desculpas. Aliás, pai, se estiver lendo isso, cheque seu armário – eu roubei sua garrafa de Jameson (que Deus te devolva em dobro).

Com as multas para o xixi, mijar na rua se tornou gincana municipal, tipo esconde-esconde. Ganha quem se esconder melhor e não ser pego.

Esperava encontrar gente famosa, mas o máximo que consegui foi conhecer a garota que caiu no Paris 6; ela se definiu como uma subcelebridade acima de um ex-BBB e abaixo de um artista da Record. Um sujeito ao nosso lado diz que ficou com setenta e três garotas – se fosse campeonato de pontos corridos, eu estaria lutando contra o rebaixamento.

Sou o pior turista de todos os tempos: segundo carnaval no Rio e ainda não conheço nada que não possa ser visto de dentro de um bloco.

Decido nadar bêbado no mar de Ipanema, e as ondas fazem o que querem comigo. Saiu da água e começo a me sentir meio tonto achando que era a bebida. Eram meus óculos, ou a falta deles, que ficaram para sempre no mar. As coisas andam difíceis de se ver desde então.

O sujeito vestido de Mario batuca enquanto tentamos lembrar músicas de conhecimento geral para o pessoal cantar. Mila, do Netinho, faz mais sucesso que Caetano Veloso.

Pelas ruas e trios-elétricos, simpatia é quase amor e amor é ilusão. As vezes dura um carnaval, as vezes nem uma tarde, mas é difícil manter o foco quando todos trocam as fantasias o tempo todo. Sereias e unicórnios foram os hits do feriado, junto com os homens vestidos de mulher. Os mesmos sujeitos que ao longo do ano chamam os outros de viado, desfilam vestidos de fadas, Minnie Mouse ou bailarinas. Curioso como a maioria dos caras não perde uma oportunidade de se vestir de mulher. Freud explica.

Contra todo o discurso clichê e intelectualizado, eu amo profundamente o carnaval. Alguns defendem que é por isso que o país não vai para frente, mas duvido muito que será o fim do futebol e do carnaval que nos transformará na Suíça. Os partidos políticos nos causam mais dano que qualquer escola de samba.

Na quarta-feira, sou só as cinzas, respirando por aparelhos imaginários enquanto penso em como voltar para casa. Arrisco a sorte na rodoviária, e arranjo um ônibus só dez da noite. Meu corpo não se limita a sofrer, também protesta. Desabo nas cadeiras de espera como que esperando a morte chegar.

Nesse meio tempo, um sujeito aparece e resolve puxar assunto, confundindo meu total cansaço com interesse, sabe-se lá porquê. Contou que viera ao Rio trabalhar no feriado, e criticava duramente a farra, as ruas fechadas, a perda dos dias úteis, a sujeira, o culto a irresponsabilidade, a safadeza e até mesmo a credibilidade de uma cidade em que a pessoa pode usar o horário de almoço para ir na praia.

- Sabe qual a solução para isso aqui? Uma bomba atômica, bumm! – diz, dando uma risada alta e um tapinha no meu ombro, numa intimidade que não me lembrava de ter dado mas não tinha forças para protestar.

O motorista abriu a porta do ônibus e começou a chamar para o embarque.

- Contanto que reconstruam tudo exatamente igual até o próximo carnaval – respondo me levantando – boa sorte com a sua bomba.

Me despeço com um aceno de cabeça e caminho resignado para a viagem que tenho pela frente. Assim termina mais um carnaval.

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