Crônica de uma tragédia anunciada - Qual será o limite do GreNal?


Não sou gaúcho, não torço pro Inter nem para o Grêmio. Sou aquilo que os torcedores do sul sacramentam como “do eixo”: um paulistano com família de Penápolis, 470km da capital. Pode-se dizer, portanto, que me falta lugar de fala para opinar sobre o clássico gaúcho, já que não sou de lá. Por outro lado, não estou envolvido na batalha de emoções que envolvem as respectivas torcidas. Fica ao leitor entender como quiser.

Qual será o limite do GreNal? O clássico mais intenso do país está numa escalada de violência. Como um dia já foi Corinthians x Palmeiras, a partida entre os dois maiores times do sul virou sinônimo de confusão. Desafio os leitores a lembrar o último que não tenha tido cenas lamentáveis, dentro ou fora de campo. E considerando a ineficiência do Estado em punir os indivíduos envolvidos, preocupa a falta de vozes realmente opositoras à violência, bem como o comportamento de certos agentes que, ao invés de resistirem, estão se tornando sócios dela.

O primeiro deles é a torcida. O comentário “GreNal sem porrada não é GreNal” é muito fácil de ser encontrado nas redes sociais. Além disso, o comportamento agressivo dos jogadores gera admiração, não crítica. Foi assim com D’Alessandro e Maicon no passado e tenho certeza que se entrarmos nas redes sociais do Ferreirinha, encontraremos mais gremistas apoiando a atitude do atleta, como se fosse um grande gesto de raça e amor ao clube, do que criticando-o pela expulsão estúpida num confronto que seu time já estava praticamente classificado. Isso condiciona o atleta. Para uma pessoa de fora, que acompanha os clássicos apenas pela grandeza dele, parece que muitos jogadores de Grêmio e Inter entram em campo mais preocupados em dar um show para sua torcida do que jogar futebol. A qualidade do GreNal não pode ser medida em cartões vermelhos.

O segundo comportamento que chama a atenção é o das diretorias. Num espírito do tipo “hoje é meu jogador agredido, amanhã é o deles” não me parece haver a revolta necessária ante as agressões sofridas por jogadores e torcedores de ambos os times. No atual recorte, dois jogadores do Grêmio foram feridos por uma pedrada e um celular, ambos atirados por torcedores do Inter. Até que ponto o tricolor não toma iniciativas enérgicas por saber que, no próximo jogo, a situação pode se inverter e essas medidas se reverterem contra ele? É um corporativismo suicida.

E por fim, temos a imprensa gaúcha, que hoje também engloba a mídia alternativa, como são chamados os influencers de rede sociais. O GreNal é um jogo de futebol. Ele não é uma guerra, uma batalha de vida ou morte, o único jogo que importa; pode-se pedir que o atleta, metafóricamente, dê a vida, mas isso não significa que eles devem se matar em campo. A inflamação que é colocada, até para dar mais audiência, neste mundo em que declarações absurdas geram likes e seguidores, tem seu papel, sim, na forma que gremistas e colorados têm tomado este confronto de forma cada vez mais radical.

Diante tudo isso, refaço a pergunta do título: qual será o limite? Escaladas, no futebol ou fora dele, tem o péssimo hábito de resultar em catástrofes. A escalada de violência entre as organizadas em São Paulo resultou numa porção de mortas. A escalada dos hooligans na Inglaterra gerou verdadeiras tragédias que custaram centenas de vidas. Se nada for feito, seja por vontade dos clubes, seja por imposição do Estado, eventualmente chegaremos a este ato final de barbárie. E nesta hora, pode ter certeza, ainda haverá quem diga que foi imprevisível. Porque é assim que funciona; uma porção de casos isolados, uma ação aqui, um revide ali, que vão se acumulando até encontraram o momento perfeito para explodirem. E quando isso acontecer, será mais uma página triste na história do futebol brasileiro e de dois dos maiores clubes do país.