Formula 1: Medo e delírio em Sochi

Os mais velhos juram que, ao final da vida, você se arrepende mais daquilo que não fez. Isso já foi tantas vezes repetido que se tornou um clichê. Mas clichês têm essa estranha mania de se repetir e, neste final de semana em Sochi, foi a vez de Lando Norris: pelo resto da vida, sempre que se lembrar dessa corrida, ele se arrependerá de não ter trocado os pneus quando teve a chance.

O GP da Rússia foi outra prova de que a temporada 2021 não tem limites, parecendo cada dia mais escrita pelos roteirista de Drive to Survive. A cada final de corrida, me vem a famosa frase do Zagallo: “Aí sim fomos surpreendidos novamente”.

Sainz conseguiu o terceiro lugar para Ferrari, premiado por uma excelente classificação e timing na hora da mudança dos pneus. Uma maldição já começa a surgir na equipe italiana: até hoje, todas as vezes que o espanhol foi pro podium, Leclerc, seu companheiro de equipe, não pontuou.

Na Red Bull, Helmut Marko e sua vibe de Imperador Palpatine mostrou mais uma vez, como o personagem diz no filme, que o lado negro da força é o caminho para habilidades que muitos consideram antinaturais. Só isso explica a cavalgada de último à segundo de Max Verstappen. Mesmo quando a equipe abre mão da corrida, como foi o caso de Sochi com a mudança de motor, tudo dá certo. O holandês está cada dia mais fenomenal. Por outro lado, Pérez, seu companheiro, parece aquelas pessoas no videogame que, para ter mais diversão na corrida, se classificam mal de propósito, só para fazer ultrapassagens. Curioso ver como uma equipe que troca de pilotos como o Vasco troca de treinador irá lidar com a performance do mexicano (que já está renovado para o ano que vem).

A atuação da Haas, mais uma vez, a gente não comenta, só lamenta. Stroll quase amassou o tetracampeão Vettel no muro, e isso é tudo que há para dizer sobre a Aston Martin. Giovinazzi ficou sem rádio, numa tentativa da Alpha de já acostumar o piloto, que ano que vem ficará sem carro. Na Alpine, Alonso segue sendo Alonso e acabou em sexto. E Tsunoda segue cumprindo seu papel de coach motivacional: se você acha que jamais realizará seus sonhos por falta da capacidade ou habilidade, lembre-se que Tsunoda corre na Formula 1 (e correrá de novo ano que vem). Tudo é possível, acredite em você.

A Willians se viciou em pontuar, e Russel se transforma cada dia mais num projeto de dor de cabeça para Toto Wolff e Hamilton em 2022. Não tenho provas, mas tenho convicção, de que o jovem piloto inglês irá para cima quando tiver a chance, e ainda ouviremos muitos vezes o rádio chamando “George, it´s James”.

E chegamos ao auge da corrida, a disputa pela vitória.

Por alguma voltas assistimos o duelo de gerações: Norris brigado pela primeira vitória, Lewis pela centésima. Venceu o piloto (e equipe) mais experiente, que corretamente parou nos boxes. Norris, que um dia antes foi gênio ao colocar pneus secos e ganhar a pole, foi vítima da própria decisão e acabou sambando na pista. Despencou de primero para oitavo.

Vai saber o que teria acontecido se a McLaren também trocasse os pneus. Talvez fosse Hamilton quem resolvesse apostar contra a chuva e arriscasse mais uma volta de slick. Poderíamos estar falando, então, de uma corrida ainda mais absurda, com vitória da McLaren, Max em segundo e Lewis, depois de largar em quarto, terminando lá embaixo. Talvez isso fosse demais.

Mas o auge da loucura, num fim de semana que teve de tudo, foi com certeza Bottas em quinto. O agora fired finn corre com a leveza de um desinteressado, e Toto Wolff lembra aquelas mães que pedem pro filho adolescente arrumar o quarto - só ele ainda acredita que Bottas conseguirá parar Verstappen em algum momento.

Fora tudo isso, deu o óbvio: Mercedes ganhou mais um GP da Rússia. Que venha a Turquia.




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