O inalienável direito de não pensar mais em mim

No documentário brasileiro Janelas da Alma, Saramago, justo ele, solta um discurso sobre a imperfeição dos olhos humanos que é de arrasar o coração. Usando Romeu e Julieta como exemplo, ele diz que se nós tivéssemos a super visão de um pássaro, seriamos capazes de ver cada imperfeição do outro - cada póro, cada mancha, cada falha - e assim a beleza e atração seriam inviáveis. Nossa vista limitada, por ser falha, permite que nós preenchamos o que ela não alcança com nossa imaginação e sentimento e, consequentemente, torna a paixão possível. É justamente por não ver tudo que conseguimos ter certeza que a pessoa é perfeita. Freud tem um texto na mesma linha, sobre como nos apaixonamos pelo ideal que fazemos do outro. E tudo isso, se formos voltar ainda mais no tempo, pode ser resumido na frase mais clichê de todas, cunhada por Geoffrey Chaucer no século XV: em inglês arcaico, “loue is blynd”. No atual, “love is blind” - o amor é cego.

E de que serve essa cegueira?

Tomá-la como simples estupidez é fazer pouco de uma prerrogativa humana fundamental. Não se trata apenas de ver a outra pessoa, mas também de aceitá-la. Este feitiço que embaça os olhos permite que vejamos além de suas falhas, e também que mostremos as nossas. A paixão, assim, é um cavalo de tróia - um truque para que baixemos a guarda e todas as neuroses da nossa cabeça, apenas porque algo no seu estômago diz que aquela pessoa é a mais incrível que você já conheceu.

A verdadeira tragédia grega, no entanto, é que não basta ser forte, é preciso ser mútuo. Já dizia Érico Veríssimo que o contrário de amor não é o ódio, é a indiferença. Às vezes ficamos completamente cegos, mas a pessoa nos vê exatamente como a gente é: não o que ela procura. Quem nunca?

Quando as coisas dão errado no começo, fica aquela sensação de como tudo poderia ter sido. Quando dá errado no final, aquele sentimento de quase traição pela pessoa ter mudado de ideia. Em ambos os casos, porém, tudo o que gostaríamos era que a pessoa nos olhasse, mesmo que por um instante, da maneira que olhamos para ela. Se você é adolescente, talvez ainda acredite que isso é possível. Se é mais velho, já sabe que não é assim que funciona. Todo ser humano nasce com direitos inalienáveis, incluindo o inalienável direito de não pensar mais em nós.

Nessas horas, é fácil a cegueira se transformar em escuridão, acompanhada de músicas tristes e filmes sem finais felizes. Mas o motivo que nos leva a isso é o mesmo que nos ajuda a superá-lo: de tão limítrofe, nossa visão está mais do que disposta a repetir a experiência na primeira oportunidade. Ser solteiro é ser Sísifo, subindo com a pedra de novo e de novo. O importante é lembrar que entre a imagem que você criou na cabeça e suas próprias inseguranças, existe uma pessoa comum, como eu e você. E quando ela parecer única, especial e insubstituível, não é seu coração, sua cabeça ou sua falta de juízo. São seus olhos.


*Roubei o título (e inspiração) para esse texto do poema “São Paulo” da Ana Martins Marques. Vale a pena conhecer.