O roteiro São Paulino (que se repete todo ano)

No final da década de 70, o cineasta Syd Field criou o que se tornaria o padrão de roteiro para a indústria de cinema americana. Até hoje, mais de 90% dos roteiros de Hollywood seguem seu modelo, que se apresenta da seguinte forma: cada página escrita equivale a um minuto de tela; a história é dividida em três atos, separados por dois pontos de virada; o primeiro ato é a apresentação dos personagens; então acontece a primeira virada, que cria o conflito que dá início a história; o segundo ato é o desenvolvimento do personagem e do conflito; e aí vem o segundo ponto de virada, que subverte novamente a narrativa, e nos joga para o terceiro e último ato, onde acontece a resolução. Para quem gosta de cinema, é divertido rever filmes hollywoodianos procurando estas marcações. Você verá que elas estão sempre lá. Outra opção é ler o livro que lhes deu origem: Roteiro - Syd Field. Mas o que isso tem a ver com o São Paulo?

Tem a ver porque já há algumas temporadas o tricolor do Morumbi também tem um roteiro preestabelecido, que segue a risca ano após ano, incluindo a atual temporada.

Começamos pelo final: o fim de ano costuma vir acompanhado de melancolia para a torcida são paulina. Os resultados decepcionantes geram pedidos de reformulação do elenco, e a diretoria fala em corte de gastos e redução da folha. Especula-se se o São Paulo é capaz de seguir o exemplo do Flamengo e passar algumas temporadas buscando apenas a recuperação financeira.

Começa o ano seguinte, sob clima de incerteza. Novos jogadores chegam, alguns deles se destacam no campeonato paulista. E assim vai até o primeiro ponto de virada tricolor, que ocorre no meio do ano. Nesta temporada, foi pelo título paulista, em outros, por uma boa campanha na libertadores ou briga pela ponta do brasileiro; seja qual for o motivo, o ponto de virada é o mesmo: o São Paulo esboça um bom momento, a torcida se inflama, a diretoria gasta para reforçar o time na esperança de vencer um grande título e voltamos a ver nas redes sociais termos como “soberano”, “jaison” e “o campeão voltou”.

O tempo passa.

As expectativas criadas começam a se mostrar inatingíveis, o time passa a falhar em momentos decisivos, a empolgação da torcida se reverte em frustração e, em seguida, em raiva. Mais ou menos neste momento, a Independente solta uma nota de crítica a diretoria e apoio à parte do elenco e comissão técnica. E aí, já na segunda parte da temporada, vem o segundo ponto de virada: quando o clube, tentando salvar o ano, troca a comissão técnica.

Neste período de reta final de brasileiro (setembro-outubro-novembro), o São Paulo trocou Aguirre por Jardine em 2018, Cuca por Diniz em 2019 e, agora, Crespo por Rogerio Ceni. Diniz também caiu na reta final, 33ª rodada do brasileiro de 2020, que aconteceu no mês de janeiro pela prorrogação do campeonato em decorrência da pandemia de Covid-19.

Com a nova comissão técnica, o tricolor tenta uma última cartada. Rogério ainda pode quebrar essa escrita, mas, nos últimos anos, os resultados foram um fim de ano decepcionante. Nem chegamos em dezembro e a torcida já pensa na próxima temporada.

O ciclo se completa: os resultados decepcionantes geram pedidos de reformulação do elenco, e a diretoria fala em corte de gastos e redução da folha. Especula-se se o São Paulo é capaz de seguir o exemplo do Flamengo e passar algumas temporadas buscando apenas a recuperação financeira. Começa o ano seguinte. E sobra para o torcedor, que inicia mais uma temporada com o gosto de “esse filme eu já vi”.

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