Racismo e o silêncio dos moderados

Em abril de 1964, Martin Luther King foi preso pelos protestos (pacíficos) realizados na cidade de Birmingham, Alabama. Na cadeia, escreveu Letter From Birmigham Jail, talvez sua segunda obra prima (a primeira, as mudanças que ele provocou ao custo de sua própria vida). O texto era uma resposta às críticas que recebeu de padres (brancos) em relação aos seus protestos; explicando os motivos de sua luta e os fundamentos de sua campanha de não-violência, acabou produzindo uma obra de valor inestimável, que, para nosso desespero, continua assustadoramente atual.

Havia um entendimento da maioria, mesmo daqueles que não eram abertamente contra o movimento negro, de que as leis de segregação deveriam ser combatidas apenas nos tribunais, sem a necessidade dos protestos. King defendeu que somente com ações diretas seria possível forçar a maioria branca a enfrentar a questão do racismo e abrir um diálogo legítimo. Ele já sabia, então, o que nós sabemos até hoje: que mudar instituições de dentro para fora é impossível, pois mudanças sociais significativas jamais acontecem pela benevolência do opressor, e sim pela luta do oprimido.

Indo mais adiante, concluiu que o maior impedimento para o movimento negro não era a Klux Klux Klan, mas o que chamou de “branco moderado”: “que é mais devoto a ordem que a justiça; que prefere uma paz negativa, que é a ausência de tensão, à paz positiva, que é a presença da justiça; que constantemente diz ‘eu concordo com seus objetivos, mas não com seus métodos de ação’; que de forma paternalista acredita que pode estabelecer o cronograma para a liberdade de outro homem (...) e constantemente aconselha os negros a esperarem por um ‘momento mais conveniente’”(tradução livre).

A data na carta é de quase sessenta anos atrás, mas poderia ter sido escrita ontem.

Eu sou branco, isso significa que não cabe a mim, nem a ninguém na mesma condição que eu, determinar o que o movimento negro quer, ou, pior, o que “deveria querer”. Quando escrevo, só posso falar sobre o lado do opressor.

O Brasil é negacionista por princípio. Nós negamos o genocídio indígena, sob a inocente história de que os índios deram as terras para os portugueses em troca de espelhos e pedaços de pano; negamos a pandemia, mesmo com 30 mil mortos; negamos o 7 a 1, fingindo que foi só um apagão momentâneo. E negamos o racismo, desde a lei áurea, em 1888 - em dezembro de 1890, Rui Barbosa, então ministro das finanças, ordenou que todos os registros sobre escravidão nos registros nacionais fossem queimados. O hino da República, composto no mesmo ano, tinha um verso que dizia “nós nem cremos que escravos outrora\ tenha havido em tão nobre país”. Como escreveu Lilia Schwarcz, o sistema escravocrata mal acabara e já se supunha que era passível de esquecimento.

Fingir que algo não existe é uma saída conveniente, e, neste caso, permite que parte da população não precise enfrentar questões como dívida histórica ou privilégios, ou tenha sua visão de meritocracia abalada. Uma das consequências disso, no entanto, é que quando movimentos negros iniciam ações afirmativas como as que vemos agora, a maioria “moderada” as toma por uma crise manufaturada, como se os negros estivessem inventando uma tensão que não existe mais, quando na verdade existe, e sempre existiu; quando movimentos de minorias eclodem, eles apenas trazem a superfície questões que a sociedade tenta esconder, nos obrigando a encará-las.

É uma verdade social que grupos acostumados com privilégios, quando veem outros grupos adquirirem direitos, tomam isso como um ataque pessoal. Isso fica bem claro quando vemos hashtags como “vidas brancas importam” ou “consciência branca”, uma limítrofe conclusão de que protestar que “vidas negras importam” significa dizer que vidas brancas, ou de qualquer outro grupo, não importam. Outro exemplo é o politicamente correto; veja o ódio que algumas pessoas sentem pelo simples fato de que não conseguem mais fazer “piada de preto” em público sem se sentirem constrangidas. É a inversão da lógica - a maioria privilegiada se vê como vítima, principalmente porque, dentro dos parâmetros que ela mesmo estabeleceu sobre o que é ou não racismo, não se considera racista. Quando alguém chama um negro de “macaco” no meio da rua, é um consenso que se trata de uma atitude racista. No entanto, a mesma visão não se aplica a todas as outras formas de preconceito que não resultam na agressão direta, como dizer que todo negro é preguiçoso, que morreria se a filha aparecesse em casa com um negro, relaciona a cor da pele à violência, que o patrão tem justificativa para não contratar nenhum negro, que negros tem aptidão natural pro trabalho braçal, entre tantos outros absurdos. Convenientemente, reconhece-se o racismo quando ele se manifesta em uma agressão, mas não em uma “opinião”. Daí a razão de encontramos tanta gente que fala esse tipo de coisa e mesmo assim bate no peito para dizer “eu não sou racista”.

É verdade que os racistas que se manifestam pública e descaradamente são minoria, mas também é minoria aqueles que ativamente os enfrenta. No espaço entre elas, temos um enorme silêncio que, como King apontou no início do texto, é tão prejudicial quanto o próprio racista. O silêncio não basta, ele é conveniente e, muitas vezes, cúmplice. O silêncio é preferir “uma paz negativa, que é a ausência de tensão, à paz positiva, que é a presença da justiça”. Como disse Angela Davis, não basta não ser racista, é preciso ser anti-racista.

Casos como o que aconteceu com George Floyd nos Estados Unidos acontecem todo santo dia, tanto lá como aqui no Brasil, com homens, mulheres e crianças negras. No entanto, nosso hábito cotidiano, enquanto sociedade, é de ignorá-los, fingir que não vemos, isso quando não passamos pano para o policial. A não ser, é lógico, que ele seja filmado. Nesses casos, quando um policial é punido, não é por ter sido racista, mas por não ter sido discreto.

No trecho mais famoso de Letter From Birmigham Jail, Martin Luther King escreveu que “injustiça em qualquer lugar é uma ameaça a justiça em todo lugar”, e essa lema seria muito mais útil para nós do que “Deus acima de todos”. Injustiça nos EUA é injustiça aqui no Brasil. Injustiça na Paraisópolis é injustiça nos Jardins. Injustiça com João Pedro e Miguel, apenas para citar duas crianças que sofreram mortes bárbaras nas últimas semanas, é injustiça com o seu filho ou o meu. Injustiça com os outros é injustiça conosco. Entender e se solidarizar com essa ideia é determinar nossas prioridades sociais; como seria nosso país se o brasileiro médio desse tanto valor as vidas (e mortes) nas periferias quanto dá para as vidraças na Avenida Paulista? Isso não significa, é óbvio, que violência seja uma solução, até porque ela é tudo o que os interessados em sufocar os movimentos querem: a oportunidade de generalizar todos os manifestantes com baderneiros, diminuir o movimento e, principalmente, justificar o aumento da repressão nos protestos futuros.

Mais do que inundar as redes sociais com mensagens de solidariedade, é preciso aproveitar o momento para estabelecer diálogo, ouvir o movimento negro e refletir sobre nossas atitudes, e demonstrar mais interesse em combater injustiças sociais do que preservar os dogmas que construímos para nós mesmos e que nos ajuda a dormir a noite. Somos todos parte do problema, e negar isso é perpetuar a injustiça.

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