Palmeiras no condicional

Se Lucas Lima voltar a jogar a bola do Santos, se Ramires recuperar o futebol do passado, se Scarpa começar a jogar o que prometia, se Luiz Adriano fizer uma temporada com menos contusões, se Zé Rafael e Veiga repetirem o que fizeram no Bahia e Athlético e se Vanderlei Luxemburgo fizer um trabalho campeão que não faz há quase 15 anos.

Sempre que ouvimos falar do atual Palmeiras, é com essa lista de condições, quase uma conjunção astral que, se acontecer, transformará o time em uma máquina de vencer. Mas a realidade é bastante diferente.

Considerando o real futebol da equipe, e a performance dos atletas que não precisam da conjunção condicional (se), o atual Palmeiras é apenas um bom time, como também são bons tantos outros no futebol nacional, e não “o segundo melhor elenco do Brasil”, como alguns tentam vender. Na pratica, no campo e nos resultados, não há nada que indique uma superioridade alviverde sobre os adversários, a não ser um passado cada vez mais distante (o domínio de Luxa há duas décadas, o futebol de Ramires há 5 anos, o de Lucas Lima há 4, o de Scarpa há 3, e etc), muito menos que o coloque em condições de brigar com o Flamengo.

Aliás, há sim: a esperança do torcedor, que se ilude.

Enquanto parte da torcida se frustra com o time, outra acredita que, eventualmente, todos os "se" serão superados por mágica. É o mesmo tipo de crença infundada que faz com que esses mesmos torcedores acreditem numa volta de Valdivia, porque "se ele conseguir manter a forma física" será titular absoluto.

Obviamente que, por trás de tudo isso, está a diretoria, que nos últimos anos tem acumulado decisões questionáveis em relação ao futebol do clube: a situação financeira poderia ser melhor se tivesse vendido o Deyverson quando teve a chance, ou não comprado o Carlos Eduardo pelo valor que pagou; 2019 poderia ter sido diferente se não fosse a absurda contratação de Mano Menezes; Poderia ter sido mais proativa se, ao invés de satisfazer-se com auto-elogios e o próprio sucesso, reconhecesse o fortalecimento dos rivais; Teria mais respeito da torcida se tivesse renovado com Fernando Prass, principalmente quando paga salários astronômicos para jogadores que não fazem ou fizeram 1% do que o goleiro fez pelo clube; Poderia ter iniciado um projeto promissor com outro técnico se se preocupasse realmente com o futebol apresentado, e não em apenas um medalhão pra servir de escudo; E talvez fizesse um trabalho melhor se a política do clube não tivesse se tornado uma perpetua campanha eleitoral cujo o vencedor(a) todos nós já conhecemos.

O jogo de ontem contra o Santo André foi apenas mais uma atuação apagada entre tantas que vimos desde o ano passado. A fraca performance de vários dos jogadores já citados nesse texto, idem. E é sempre bom lembrar que, mesmo que vença o grande Campeonato Paulista, o título valeria mais se o próprio presidente não o tivesse chamado de "paulistinha" há dois anos atrás.

Em 2019, o Palmeiras se contentou com o posto de “melhor time do Brasil, se não existisse o Flamengo”. Hoje, essa visão evoluiu para um auto-engano, enquanto muitos preferem acreditar que o Flamengo deu sorte ano passado, e que o Palmeiras pode, com o atual treinador e atual elenco, jogar o mesmo futebol e ganhar os mesmos títulos que o time da gávea. Como em Esperando Godot, peça de Beckett em que os personagens passam a vida esperando uma pessoa que não sabem se virá, a torcida espera resultados sem nada que justifique a capacidade do time em obtê-los.

O Palmeiras é um time com muitos nomes de peso, mas que na prática está muito distante de jogar a bola que promete. Chegou a hora de pararmos de olhar para o time no papel, e começar a avalia-lo em campo, porque, como todo mundo sabe, o “se” não joga. E, infelizmente, nem o Palmeiras.

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