1992, 2021 - Hora do Palmeiras devolver o favor

Em 1992, o Palmeiras, que começava a ser Parmalat, chegou a final do Paulista contra o São Paulo de Telê, já multicampeão. Como é tradicional no nosso futebol, a partida começou muito antes da bola rolar, nos bastidores, pois no mesmo período da final o São Paulo tinha um compromisso quase sem importância - ir ao Japão enfrentar o Barcelona de Cryuff pelo Mundial - que gerou uma queda de braço para decidir a data dos jogos da final.

O São Paulo ganhou a briga contra a Federação Paulista, e em 5 de dezembro o tricolor campeão da libertadores entrou em campo contra o Palmeiras há 17 anos na fila, e venceu por 4 a 2, com um 1 de Cafú e 3 de Rai. Logo em seguida a equipe embarcou para o Japão, bateu o Barcelona no dia 13, e voltou para o Brasil para disputar a partida de volta da final, no Morumbi com 110 mil pessoal, no dia 20 de dezembro. Mais uma vitória tricolor, por 2 a 1, gols de Muller e Toninho Cerezo. Zinho descontou no último minuto do jogo para o Palmeiras, mas o título ficou com o São Paulo.

Para o palestrino, doeu. Ficar mais um ano na fila interminável e ver o rival ganhar mais um título foi mais um golpe no já desesperado torcedor palmeirense, que só viu sua desgraça acabar no ano seguinte, no titulo Paulista de 93. E é aí que está a pegadinha.

Se o São Paulo se recusasse a jogar as finais, colocado o juniores ou simplesmente perdido o título devido a exaustão da viagem ao Japão, o Palmeiras teria sido privado do maior momento de alegria da história do clube: sair da fila contra o Corinthians, com o gol de Evair, do jeito que tinha de ser. O palmeirense romântico pode dizer, portanto, que o tricolor fez um favor ao rival, ao permitir que o alviverde voltasse a ser campeão do jeito que foi.

Avançando no tempo, agora, em 2021, é a mesma final, só que ao contrário: um Palmeiras multicampeão chega a decisão contra o São Paulo na seca de títulos, e acredito que é hora do Palestra devolver o favor.

O sãopaulino mais afoito talvez ache que a glória será vencer os jogos de quinta e domingo e acabar já essa semana com a fila, mas para que a pressa? Acredite em mim são paulinos, o futuro a Deus pertence e o que está por vir é ainda melhor. Quem sabe também contra o Corinthians, quem sabe também com gol decisivo no final. Quem quer sair da fila nesse torneio bizarro de jogos à cada 48 horas? Um paulistinha com os asteriscos da pandemia? Não. O fim da fila tricolor merece muito mais, e se há vinte anos atrás o São Paulo deu ao Palmeiras o prazer da espera pela catarse de 93, o mínimo que o alviverde pode fazer agora é retribuir essa alegria ao rival da capital, que afinal é um co-irmão.

Amigos são paulinos, não se deixem levar pelas piadas dos adversários, ou pelo assombro das memórias recentes. A hora vai chegar, e quanto mais ela demora, maior o êxtase. Confiem mim, um pelmeirense que não trocaria 93 por nada nesse mundo: o melhor a se fazer é perder a final para o Palmeiras, e quando virem o rival levantando a taça, digam “obrigado”. Vocês vão me agradecer.