Achei que era saudade, mas era a quarentena.

Talvez você seja uma pessoa de sorte enclausurada com aquele alguém especial. Supondo que seja um relacionamento feliz, não haveria companhia melhor para enfrentar essa situação. Ou talvez você pense justamente o contrário e veja isso como uma maldição; quantos casais não estão, neste exato momento, presos em casa lendo Garota Exemplar e imaginando como matar o companheiro? Mas isso é problema dos comprometidos. Este texto é para os solteiros, e, amigos, nós estamos numa briga de foice no escuro.

Próximos a completarmos um mês de clausura, já falamos sobre as medidas de segurança, como lidar com essa ansiedade galopante, nosso futuro ex-presidente e até o BBB, mas há algo que ainda mantemos escondido, a não ser por memes que dizem a verdade em tom de piada: a situação do jovem preso em casa cheio de amor para dar.

Tenho conversado com amigos, ouvido histórias, reunido informações. A situação é grave: o Twitter perdeu a vergonha na cara; semana passada os usuários organizaram concurso de nudes. Sites pornôs e apps de paquera batendo recordes de acesso.

Solidão e ansiedade, somadas ao tédio e um celular o dia inteiro nas mãos, são uma péssima combinação, e óbvio que faremos cagada. Por isso é importante lembrar que, quando tudo isso acabar, nós viveremos as consequências de cada “oi sumida” e story respondido nesta quarentena.

Se você acabou de terminar um relacionamento, por exemplo. Vocês brigaram, mandaram um ao outro para puta que pariu e juraram nunca mais se ver. Aí veio uma pandemia mundial. Você está sensível, todo mundo com medo, e é muito fácil querer voltar para outros tempos, nos quais você tinha alguém na sua vida e ia para a Heavy House toda quinta-feira. Não faça isso. Lembre-se sempre que “ex” é diminutivo para “exemplo de erro que não devemos cometer de novo”. Se ficar muito difícil, nessas horas religião ajuda; não pense na pandemia como uma calamidade aleatória que se abateu sobre o mundo, mas como uma provação que Deus mandou para testar a sua fé (em abandonar o/a traste). Pessoas estão doentes e a economia indo pro saco por sua causa. Se não resistir por você, resista por elas. Não é bom se sentir especial? Por outro lado, é possível que você viva um desses relacionamentos Jason, que mesmo depois de incinerado, atropelado, metralhado e afogado num lago escuro, abre os olhos no final e todo mundo sabe que virá outro filme. Neste caso, melhor momento não há. Trancada em casa o dia inteiro, com certeza sua ex ainda não encontrou nada melhor.

Para os que não namoravam, mas viviam de rolo, há outras questões mais profundas. Quem não te responder na quarentena, não te responde mais. Agora não é nem mais ghosting, é desaforo mesmo; ninguém poderá dizer que estava ocupado demais para olhar o celular. Se para bom entendedor uma mensagem não respondida basta, uma mensagem não respondida na quarentena é como fogos de artifício na noite de uma cidade vazia enquanto as pessoas batem panela na janela, tudo para dizer parabéns aos médicos, fora Bolsonaro e “eu não estou interessado em você”. Não dá para ser mais claro que isso. Move on.

Dito isso, passemos aos casos práticos.

Se você tem um amor platônico, aquele à distância que te transforma em um semi-stalker no Instagram, talvez tenha chegado a hora de dizer alguma coisa. Nos filmes de aventura, o mocinho e a mocinha sempre se beijam quando tudo parece estar perdido; é o efeito afrodisíaco do apocalipse, o mesmo que te faz querer transar mesmo quando a pessoa coloca Jorge Vercillo na caixa de som. Se você realmente gosta dela, pegue o celular e diga como ela é especial. Aproveite e dê uma dramatizada, diga que esse momento que vivemos te fez pensar em quem você realmente quer ter sempre por perto e que se o mundo acabar, sei lá, nos próximos três minutos, pelo menos você queria que ela soubesse de tudo isso. Não se esqueça do “hahaha” aqui e ali para suavizar. Obviamente, há o risco da pessoa responder que prefere passar os últimos minutos da vida dela fazendo um miojo do que com você. Não vou mentir, é uma possibilidade, e um risco que você terá que correr (lembre-se que dignidade e orgulho não se aplicam para gente apaixonada). Mas ela também pode dizer sim, e em tempos trágicos é preciso dar esse voto ao romantismo.

A segunda situação é a dos que não amam ninguém, e estão aproveitando a quarentena para fazer xaveco aleatório. Puxa assunto, responde story, marca em foto, qualquer coisa por alguns instantes de conversa de duplo sentido, as vezes com gente que nunca viu na vida. Neste momento de crise, xaveco não serve apenas para massagear o ego, mas também para passar o tempo. É a paquera enquanto esporte; ambos sabem que a coisa não dará em nada, porém gostam do entretenimento. Logicamente, tudo tem limite. Sem conteúdo, uma hora ninguém aguenta mais conversas sobre Netflix ou coisas para se fazer em casa, e é preciso tomar cuidado com isso. Por mais que seja divertido fingir uma conexão com alguém por alguma horas, quando percebemos que essa conexão não existe isso só aumenta nossa ansiedade. No fim das contas, o xaveco aleatório é uma versão “drink sem álcool” das relações de uma noite só: tão superficiais quanto, mas sem o bônus do sexo.

E chegamos ao terceiro tipo de situação, a dos casais que não são casais, esses que ficam desde 2011 sem nunca terem tido nada serio, aquele encosto que todos já tivemos na vida. Se você se enquadra nessa categoria, se prepare, porque farei um truque de mágica; sem conhecer nenhum de vocês, vou adivinhar como é este seu relacionamento. Preparados? Lá vai: Vocês vão e voltam há muito tempo, mas nunca chegaram a ter algo realmente sério, porque sempre tem algum drama envolvido, e quando a coisa desanda, vira um jogo de poder para ver quem será o primeiro a tentar retomar a conversa. Inevitalmente, no entanto, um dos dois sempre dá um jeito de reaparecer; são extremamente íntimos, então quando a conversa volta, é como se nunca tivesse parado; é mais divertido falar com essa pessoa que com trezentos dates aleatórios; mesmo assim, um sempre acaba fazendo algo que magoa o outro, e então retorna a Guerra Fria para ver que consegue dar o maior gelo. Advinhei, não é? O truque é simples: esse tipo de relacionamento é um super clichê, por mais que a gente goste do drama e ele faça parecer que estamos em um episódio de série de televisão, aquela coisa do “will they won’t they” a lá Ross & Rachel, Ted & Robin, Ryan & Marissa, Jim & Pam, Jack & Kate, Sawyer & Kate, e tantos outros seriados. Como disse, um clichê. Mas quem não gosta de um repeteco, principalmente nesse momento sem muitas opções?

Se você está pensando em mandar mensagem, portanto, aqui vai algumas dicas. Primeiro, todo mundo já disse a frase “achei que era amor, mas era só tesão”, então cuidado para não cair na “versão isolamento social” dela, que é “achei que era saudade, mas era só a quarentena”. Reflita. Se após a reflexão a resposta for “é saudade”, então corra pro abraço (metafórico). Esses relacionamentos eternos acabam assumindo diversos papeis na nossa vida ao longo dos anos. São um bote salva-vidas para quando nossos outros relacionamentos dão errado, um pouco de emoção quando nossa vida está parada, uma injeção de auto-estima para quando estamos numa pior achando que ninguém se importa conosco, e aí nos lembramos que há pelo menos uma pessoa que se importa. São o botão de emergência da nossa vida emocional, e acho que não há melhor momento para apertá-lo. O que tem a perder? Se dar errado, não será a primeira nem a última vez, afinal sempre dá errado entre vocês, certo? Pelo menos a conversa é boa e vocês realmente se importam um com o outro.

Para concluir, algo que eu não precisaria falar, mas como hoje até o óbvio precisa ser dito, direi mesmo assim: obviamente, este texto faz piada com um situação muito séria que está custando a vida de pessoas no mundo inteiro. Se seu maior problema na quarentena é a saudade de dar uns beijos, você tem muita sorte. Isso aqui é apenas uma tentativa, de um cara sozinho em casa para tantas outras pessoas sozinhas em casa, de encontrar algo para nos distrairmos e, quem sabe, tentar dar uma ou outra risada. Estamos todos sozinhos, frustrados, ansiosos e carentes, então qualquer coisa é válida. Faça o que achar que é melhor para você. Só tente procurar algo real, nesse universo atual que parece ter saído de um livro de ficção. O legal seria gastar esse tempo falando com alguém que, quando tudo isso acabar, também esteja ansiosa para nos dar um beijo e um abraço. Estou torcendo por vocês e, se as mensagens derem errado, serei o primeiro a querer ouvir a história, com muita bebida em um bar lotado. Até lá, lave as mãos, fique em casa e não se esqueça que essa crise horrível uma hora irá acabar, e em breve estaremos todos juntos de novo.

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