Arte por arte

Como se contrapõe uma obra de arte? Com a polarização nacional dos últimos anos, e principalmente desde a eleição do ano passado, esta é uma pergunta que cada dia ganha mais relevância, ainda que ninguém a faça diretamente.

No programa Pingo Nos Is (Jovem Pan) desta semana, por exemplo, ao criticar a indicação de Democracia em Vertigem ao Oscar, um dos comentaristas se perguntou como é possível que não haja outro documentário que mostre o que, na visão dele, é a realidade (quem está certo ou errado é irrelevante neste texto). Comentários como esse podem ser encontrados diariamente, em especial pelos apoiadores do atual governo.

Por puro masoquismo, costumo ler os comentários em redes sociais e, além das ofensas, sempre que um artista posta algo, ou alguma obra sua ganha relevância, um dos comentários mais comuns é o pedido de contraditório: “por que você não fala da roubalheira?”, “por que não faz piada com o Lula?” e etc. Esse pedido está em todo lugar, nas tirinhas da Laerte, no vídeos do Porta dos Fundos, na indicação de Democracia em Vertigem, no Tutorial de Maquiagem que viralizou e até nos meus textos. E diante dessa demanda, fica a dúvida: realmente, por que ninguém faz arte para essas pessoas?

Desde o fim da ditadura militar, ou seja, nos últimos trinta anos, nunca a máquina pública esteve tão a favor da direita e extrema direita, incluindo os órgãos de cultura. Vale lembrar que o atual presidente da Funarte, Dante Mantovani, acredita que o rock n’ roll foi uma estratégia marxista para destruir a moral da sociedade; em suas palavras “O rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto”, e também que o então secretário de cultura Roberto Alvim caiu por fazer um vídeo numa clara alusão à Goebbels. Resumindo, haveria apoio e investimento, isso sem contar no mínimo duas grandes emissoras de televisão que já se mostraram mais do que propensas a fazer propaganda para qualquer coisa a favor do atual governo. Mesmo com tudo isso, até o momento a obra de arte mais relevante em prol do governo foi o Romero Brito de Jair Bolsonaro usando batom.

Piadinhas à parte, minha questão é simples: por que, até agora, não surgiu um autor que escreva o que essas pessoas querem ouvir, um Porta dos Fundos que faça piadas que os agrade, um artista, relevante, que os represente? Pois, ainda que trata-se de um grupo de pessoas que, em grande parte, acredita que arte é desnecessária, o comportamento diante de cada obra que a critica deixa escapar uma enorme frustração. Aliás, não só uma.

A primeira delas é histórica: desde que o mundo é mundo, por motivos óbvios, quase toda arte é de esquerda. A segunda, é sobre a relevância: o ódio que dá o fato de que uma declaração do Caetano Veloso, por exemplo, rode o mundo enquanto a do Roger se limita à seus seguidores no Twitter. E, a terceira, é pela própria ausência de uma arte que o represente; a certeza, ainda que silenciosa, de que, para consumir arte de qualidade, você será obrigado a tolerar aquele ator, músico ou autor que detesta, pois ele tem opinião política diversa da sua. A soma de todas essa frustrações gera o cenário que temos hoje, que é declarar guerra a classe artística em geral.

Então voltamos a pergunta inicial: como se contrapõe uma obra de arte? Usando Democracia em Vertigem, que é o assunto do momento, como os grupos que se sentem ofendidos pela indiciação do filme ao Oscar poderia rebatê-lo? Obviamente, bastaria que um diretor produzisse um documentário apresentando o outro ponto de vista. E ao cartunista que desenha Bolsonaro como um monstro? Simples, outro cartunista o desenharia de outra forma. Quando isso não acontece, surge a dúvida: será que não há, hoje, artistas de direita capazes de produzir obras relevantes?

Arte se combate com arte, independente da sua posição política. E esse vazio da oposição que se apresenta toda vez que alguma obra “de esquerda” ganha destaque, apesar de ser cômico para alguns, é na verdade perigoso, pois a consequência natural dele é o desejo por censura, ou seja, o pensamento de que se é impossível ver a sua visão representada, então é melhor impedir que o outro apresente a dele.

O artista interpreta a realidade que vê a sua volta e, a partir dela, cria. Seu único compromisso é com o próprio trabalho, e se você não concorda com ele, por qualquer motivo, é completamente livre para não consumi-lo. No entanto, perder tempo da sua vida exigindo que o artista faça o “contraditório” é absurdo e infantil, como exigir que Picasso, ao terminar Guernica, pintasse outro quadro retratando o lado de Franco. A obrigação de retratar o lado de Franco é do artista que o apoia. Da mesma forma, quem deveria fazer arte que exalte o atual presidente, ressalte a economia ou critique o antigo governo são os artistas que acreditam nisso. O que me leva a conclusão de que essa raiva da direita e extrema direita com a classe artística é, na verdade, uma raiva consigo mesma por se ver incapaz de produzir artistas que as preencha. E, de quebra, já que ninguém sente raiva sem motivo, também prova que viver sem arte é impossível.

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