Carnaval (3)

Por motivos além da minha compreensão, os textos sobre o carnaval costumam ser meu pico de audiência ano após ano. Então, aqui estamos de novo; vamos caçar esse like.

O melhor remédio para ressaca é ter menos de 25 anos. Em um passado cada vez mais distante, nos jogos universitários da faculdade, eu ia dormir e acordava poucas horas depois com Quito, um grande amigo meu, entrando no meu quarto com o café da manhã: cerveja e um maço de Marlboro light. E assim começava mais um dia. Amigos, este tempo já passou. Depois dos 30, tudo que você gosta te dá ressaca, azia ou dor de cabeça. Dessa vez precisei de um dia de repouso no meio da folia. Dormir até tarde e comida saudável no restaurante quilo. Um pouquinho de droga, um pouquinho de salada, é o truque (dizem).

Perdi o celular e consegui recuperar o celular. Quebrei um dente bêbado. Perdi minha carta de motorista e consegui recuperar minha carta de motorista. Fiz cabaninha para que três amigas pudessem fazer xixi. Uma delas acabou acertando minha perna, mas não quis saber qual; é melhor para amizade manter este mistério. Algum coitado esqueceu um Peugeut no meio do bloco. Virou camarote: 7 pessoas de pé em cima do carro. Uma viatura da PM desceu a rua e uma menina quis beijar os policiais. Enfiou a cara pela janela e deu um selinho em cada um. Eles tentaram manter a pose de mal, mas depois caíram na risada. Saí de um bloco atrás de outro chamado “Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”. Nunca cheguei nele.

Obviamente, minha ansiedade se fez presente. Tentei afogá-la em litros de cerveja, mas a filha da puta já aprendeu a nadar. Sabe-se lá porquê, minhas crises também costumam divertir os leitores. Eu culpo a Tati Bernardi por isso. Até que segurei a barra: só na terça à noite tive que desistir. A meta é chegar na quarta-feira de cinzas ano que vem. Cada pessoa tem seus próprios gatilhos. Eu sofro com crises de ansiedade, e quando faço coisas muito longe da minha zona de conforto, que podem ser um bloco, viagem, ou mesmo um jantar ou date, eu começo a ficar ansioso com a possibilidade de algo der errado e eu acabar tendo uma crise. Obviamente, um ciclo se forma, pois de tanto pensar em não ficar ansioso, eu acabo ficando. As coisas já estão bem melhores do que no passado, mas é algo que ainda consome uma parte considerável da minha energia diária. Um exemplo prático: uma das situações mais desconfortáveis para mim é quando me vejo preso em algo que não posso simplesmente desistir e ir embora, mesmo que apenas por que seria constrangedor. Para solucionar isso, eu pulei os esquentas no carnaval. Sem horários para se encontrar, ou gente contando comigo para ir para farra. Encontrei o pessoal todos os dias direto no bloco, e assim pude ir no meu ritmo, do meu jeito, livre para mudar de ideia a qualquer momento, sem ninguém em volta para tentar me convencer do contrário. Funcionou. Talvez você que esteja lendo isso ache tudo ridículo, ou não acredite que seja realmente assim, ou, ainda, me ache o maior loser da face da terra. Não tenho nada a fazer sobre isso, a não ser torcer para que você nunca passe por algo parecido.

Coronavírus galopando pelo mundo, e todo mundo dando gole da mesma garrafa. Uma garota criticou meus textos e depois me pediu um isqueiro. Perdoei. O gringo engraçado da vez, pois todo carnaval tem um gringo engraçado, foi um americano chamado Pielsen. Uma das meninas que possivelmente fizeram xixi na minha perna acabou ficando com ele. Discuti três anos da minha vida num dia, e sete em outro. Fiz aula com uma turma fantasiada de Parkour de Taubaté. E ensopado, com frio, debaixo de chuva, experimentei aquele momento em que você percebe que está exatamente onde queria estar com quem você queria estar. É sempre especial. E passageiro. Coisa de carnaval. Tudo já voltou ao normal. Quis entrar na fila da conga, mas fui impedido, pois disseram que seria a gota d’água.

O carnaval sempre chega e vence, independente da chuva, Crivella, golden shower, Damares e cia. E o carnaval sempre passa. Ficam as memórias. E o glitter.

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