Tortura Cotidiana

No meio da rua, uma cena de faroeste enquanto dois cachorros se encaram para o duelo: um Pinscher e um Jack Russel, minúsculos dinossauros em espírito.

Crianças fofas com cara de sono carregadas pelos pais até o maternal. O senhor que lê jornais na varanda. O gato do vizinho que toda manhã se apoia no parapeito da janela como se pensasse em suicídio. Roupas de ginástica coloridas trotando contra o frio, camas abandonadas sob promessas de amor eterno e retorno rápido.

Cinco minutinhos a mais responsáveis por atrasos de uma hora, a pressa filha da mãe, o trânsito filho da puta. Sonhos que largamos na cama para traí-los com a realidade.

Rádio comentando notícias que todo mundo já leu no celular. As mesmas músicas, as mesmas piadas, a mesma dúvida: por que nenhum DJ de rádio sabe falar inglês?

Pinguins de paletó em marcha, formigas carregando cinquenta vezes o seu peso. “Bom dia” mais ou menos sincero, bafo de fome, de pasta de dente, de café. Cabelos úmidos, remela nos olhos, cara amassada, aquele bom humor fingido, aquela falsa animação.

Sonhos eróticos com o travesseiro, sonhos pornográficos com faltar ao trabalho. A anestesia familiar da rotina, milk shake de obrigação, hábito e tédio. Planos, preocupações e problemas. Pânico. Enfrentar de cabeça erguida essa tortura cotidiana, afinal, o que se pode esperar de um dia que começa tendo que se levantar?

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